O Ralan Group, uma incorporadora de apartamentos de Sydney e Gold Coast com 21 anos de atividade, entrou em administração judicial em julho de 2019 com dívidas de A$ 500 milhões e cinco projetos inacabados, deixando 2.300 investidores — muitos deles chineses-australianos, alvo de equipes de vendas que falavam mandarim e cantonês — diante de perdas sobre quase A$ 300 milhões em depósitos de apartamentos na planta.
Contratos obtidos pela ABC Investigations mostram que a Ralan pediu aos compradores que liberassem seus depósitos como empréstimos não garantidos extremamente arriscados, pagando 15% de juros ao ano. O administrador Grant Thornton afirmou que apenas uma fração dos depósitos permanecia nas contas de trust; acredita-se que o restante foi gasto em custos operacionais e no pagamento de juros a investidores anteriores. Said Jahani, da Grant Thornton, observou que captar recursos de mais de 20 pessoas exige licença da ASIC: "Nada disso foi efetivamente feito pela Ralan", e a prática parece ter ocorrido "desde o início". Estava em consideração um encaminhamento à ASIC.
O ex-vendedor Stanley Xie disse que visava especificamente pessoas com nomes chineses e as pressionava a aderir ao esquema de empréstimo de depósitos. A família do ex-motorista de ônibus Ben Huang investiu A$ 350 mil em dois apartamentos após uma ligação fria não solicitada em 2013 e corre o risco de perder tudo. As principais credoras da Ralan, Westpac e a financeira boutique Wingate, nomearam administradores judiciais, negaram qualquer conhecimento dos acordos de empréstimo com investidores e agora enfrentam três ações coletivas distintas, investigadas por investidores que afirmam que os bancos lucraram com suas perdas.
Quase A$ 300 milhões em depósitos de 2.300 investidores, em grande parte perdidos e não garantidos; A$ 500 milhões em dívidas do grupo; cinco projetos inacabados; três ações coletivas em investigação.
Depósitos que deveriam permanecer protegidos em trust foram convertidos em empréstimos não garantidos da empresa, irrecuperáveis quando a incorporadora faliu.
A captação sem licença operava em um ciclo com formato de pirâmide: novos depósitos financiavam custos operacionais e os juros de 15% de investidores anteriores.
Cada projeto dependia da próxima pré-venda para capital de giro, de modo que o modelo só funcionava enquanto novos lançamentos surgissem.
Equipes de vendas em mandarim e cantonês foram pressionadas a vender o produto de empréstimo de depósitos a comunidades-alvo sem documentos de divulgação.
A lição
Depósitos de clientes são dinheiro de trust: convertê-los em empréstimos não garantidos com juros para financiar o negócio é uma aposta com formato de pirâmide de que o próximo projeto virá.
Said Jahani, da Grant Thornton, vasculhava os registros financeiros da Ralan para estabelecer há quanto tempo durara o uso dos depósitos, e o administrador considerava encaminhar a empresa à ASIC por violações das leis de proteção ao investidor. Os administradores judiciais nomeados pela Westpac e pela Wingate controlavam o futuro imediato. O fundador William O'Dwyer recusou entrevistas; por meio de advogados, disse que "lamenta profundamente o estresse e a ansiedade" e alertou que a publicidade negativa poderia comprometer qualquer proposta de resgate ou reestruturação.
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