A Zeromax, um conglomerado sediado em Zug cujo império no Uzbequistão — do processamento têxtil à extração de gás natural — a tornou a maior empregadora do país e responsável por até 10% do seu PIB, entrou em colapso em 2010 em meio a uma disputa pelo poder político em Tashkent, deixando dívidas superiores a 5,6 bilhões de francos suíços: a segunda maior falência da Suíça, atrás apenas da Swissair. Pelo menos 2,5 bilhões de francos suíços dos seus ativos continuam desaparecidos. A empresa foi por muito tempo associada a Gulnara Karimova, filha do ex-presidente Islam Karimov, que nega qualquer vínculo.
A parceria suíça da EY deu à Zeromax um atestado de boa saúde financeira para 2005, 2006 e 2007, e permaneceu como sua auditora por mais três anos sem publicar novas opiniões de auditoria. As contas que aprovou incluíam mais de US$ 13 milhões em joias de luxo em 2006-07 — incluindo US$ 2 milhões em uma única loja Christian Dior em Genebra — e mais US$ 25 milhões nos dois anos seguintes, além de US$ 288 milhões transferidos para empresas offshore opacas entre 2004 e 2007.
US$ 180 milhões foram para a Galat Enterprises, registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, que pagou pelo menos US$ 5 milhões à Takilant, a intermediária de Gibraltar identificada em decisões judiciais dos EUA e da Suécia como estando no centro de um esquema de suborno que pagou Karimova por contratos de telecomunicações. A Merkony e a Belphil Capital, outras beneficiárias offshore, enviaram à Takilant mais US$ 33 milhões, segundo autos judiciais suecos.
As esquisitices não paravam: uma cobertura em Hong Kong de US$ 29 milhões registrada como espaço de escritório e vendida quatro meses depois por US$ 14 milhões ao então namorado de Karimova; US$ 27 milhões gastos com futebol em 2008-09, contratando grandes nomes para o clube uzbeque FK Bunyodkor — um contrato de US$ 15 milhões com Luiz Felipe Scolari e US$ 12 milhões por Rivaldo; e uma conta de US$ 250 mil da esposa de um executivo-chefe em um sanatório exclusivo, justificada com a promessa de reembolso. Um executivo da EY chegou a questionar a falta de uma "razão de negócios" em uma transferência não documentada de US$ 5,5 milhões; a administração respondeu que a razão era "autoexplicativa".
A segunda maior falência suíça de todos os tempos; pelo menos 2,5 bilhões de francos suíços em ativos desaparecidos; EY processada em Zug por US$ 1 bilhão pela Lion Point Capital
Os investidores se tranquilizaram com o domicílio suíço e com um auditor Big Four; ambos os sinais eram ornamentais — a divulgação era opaca e as opiniões cessaram após 2007.
Saídas extraordinárias — joias, jogadores de futebol, coberturas — foram registradas como despesas comerciais e nunca desencadearam uma investigação mais ampla sobre a confiabilidade da administração.
Ciclos offshore justificados por contratos genéricos de "consultoria" levavam à intermediária no centro de um esquema de suborno comprovado.
Quando a EY questionou uma transferência não documentada de US$ 5,5 milhões, a administração chamou a razão de negócios de "autoexplicativa" e o assunto morreu.
A lição
Um auditor que aprova joias, contratos de futebol e ciclos offshore como comércio comum abre mão da única coisa que uma auditoria existe para vender: o direito de confiar nas contas.
O fundo hedge americano Lion Point Capital, que comprou dívida da Zeromax do espólio da falência, está processando a EY Suíça em Zug por US$ 1 bilhão em danos; a EY afirma que decisões de tribunais uzbeques causaram uma desapropriação de fato e que se defenderá vigorosamente contra "ações vexatórias". Em 2016, a polícia federal suíça encontrou joias pagas pela Zeromax, incluindo um anel Boucheron de US$ 2,5 milhões, em cofres de Karimova em Genebra; ela está presa em Tashkent desde 2015. Centenas de credores europeus, muitos deles pequenas empresas na Alemanha e na Europa Central, ainda têm a receber bilhões no total.
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As fontes
- Swiss EY under scrutiny over major bankruptcy The Irish Times · irishtimes.com ·