A Victoria Cruises Line se apresentava como o primeiro cruzeiro residencial acessível do mundo: cabines a cerca de US$ 3.840 por mês para uma viagem de três anos a 115 países. Os australianos Dennis e Taryna Wawn pagaram um depósito de US$ 10.000 em maio de 2022 depois do que consideraram uma due diligence — um site detalhado, respostas a todas as suas perguntas, um grupo no Facebook de outros "residentes".
Semanas antes da partida prevista para maio de 2023, a VCL adiou, alegando que o cruzeiro não havia atingido a ocupação de cerca de 80% necessária para fretar uma embarcação. Adiou mais duas vezes. A BBC apurou que a VCL não era proprietária nem tinha contrato de locação do navio que anunciava — o antigo Veendam da Holland America, agora Majestic — e que o proprietário do navio negou qualquer associação com a VCL quando contatado.
A VCL admitiu 132 cancelamentos, disse ter investigado 38 reclamações e não ter encontrado nenhuma que justificasse reembolso, e atribuiu os reembolsos retidos a razões administrativas, dados bancários incorretos, prazos perdidos e verificações antilavagem de dinheiro. Também admitiu ter alterado contratos depois que os clientes assinaram e aplicado novas condições retroativamente. Um casal húngaro venceu um processo que anulou as mudanças contratuais, mas a execução da decisão travou quando a VCL transferiu sua base para a Itália.
Registros da empresa mostraram uma teia de negócios em um único endereço em Budapeste — a fundadora Viktória Takács-Ollram, sua mãe de 79 anos como CEO, seu filho como vice-presidente — e declarações fiscais indicaram mais de US$ 253.000 em impostos não pagos. Uma investigação em Utah constatou que nenhum porto de partida havia sido reservado e que supostos funcionários nunca receberam ofertas de emprego; sua representante nos EUA assinou uma ordem de conformidade que a proíbe de promover esse tipo de viagem. A última partida programada, em 26 de julho de 2025, também não aconteceu.
Dezenas de depósitos não reembolsados — um casal pagou US$ 10.000; alguns venderam suas casas ou realocaram seus animais de estimação; uma vitória na Justiça húngara não pôde ser executada
A VCL continuou recolhendo depósitos para um cruzeiro para o qual não tinha navio, com a lógica de que o fretamento exigia primeiro a ocupação.
Quando os clientes pressionaram por reembolsos, a empresa ameaçou com ações judiciais qualquer pessoa que reclamasse nas redes sociais.
Sua defesa — de que os clientes sabiam da condição de ocupação — foi enfraquecida pela publicidade que nomeava um navio que ela não controlava.
Mudanças contratuais retroativas e a troca de registro entre a Hungria e a Itália tornaram a recuperação praticamente impossível.
A lição
Vender um produto que você ainda não pode entregar só é uma pré-venda se os gatilhos de reembolso forem honestos; uma condição de ocupação sem um navio fretado transforma depósitos em armadilha.
Até a reportagem da BBC de 4 de outubro de 2025: a VCL ainda anunciava o cruzeiro no Facebook e no Instagram, oferecendo descontos e cashback, com novos "residentes" mostrados em imagens de banco. A Meta disse não ter encontrado violação de suas políticas de anúncios, apesar de denúncias repetidas. A VCL negou estar aplicando um golpe — "respondemos a todos os e-mails, então não somos uma empresa fantasma" — e disse que os clientes que exigiram reembolsos não conseguiam aceitar que não tinham direito a ele.
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