Em 2011, a BRF pagou cerca de US$ 150 milhões para assumir o controle da Avex, uma empresa argentina de frango em Río Cuarto, na província de Córdoba, junto com a fabricante de massas e molhos Danica. O plano era transformar a Argentina em uma grande plataforma de exportação de frango. Isso nunca aconteceu: o país não tinha as acreditações de exportação necessárias, suas safras de grãos causaram problemas, e a Avex não conseguiu desenvolver a rede de fornecedores integrados de frango que sustenta a operação brasileira da BRF — um executivo do setor estimou que teria sido necessário mais US$ 50 milhões de investimento para construir uma.
Quando chegou o momento de corrigir a Avex, a BRF escolheu outro caminho. Entre 2014 e 2015 a empresa considerou fazer esses investimentos, mas preferiu adquirir marcas e operações argentinas de suínos (Calchaquí e Campo Austral) para reduzir o peso da Avex no balanço. O negócio de frango continuou drenando a matriz brasileira: a Avex foi responsável por mais de 50% dos prejuízos que a BRF registrou no Cone Sul, onde o Ebit de 2017 ficou negativo em R$ 81 milhões — mesmo com a Argentina gerando cerca de 80% da receita de R$ 1,8 bilhão da região.
A concorrência fechou a armadilha. Em 2016 a BRF tentou importar galinhas matrizes — ovos férteis do sul do Brasil —, mas restrições argentinas bloquearam, e fontes disseram ao Valor que a Granja Tres Arroyos, fornecedora de material genético da própria BRF e maior produtora de frango da Argentina, pressionou o governo para manter os ovos fora. "Fizeram de tudo para nos impedir de importar", disse uma fonte. Em meados de 2018, com a BRF em crise, o plano de resgate de Parente colocou os ativos argentinos à venda em três partes — Avex, Quickfood e suínos —, com apenas a Granja Tres Arroyos vista como compradora plausível, a um preço muito baixo.
Cerca de US$ 480 milhões gastos em aquisições argentinas desde 2011 — aproximadamente US$ 150 milhões só pela Avex; Ebit do Cone Sul negativo em R$ 81 milhões em 2017
A tese da aquisição se baseava em exportações que nunca se materializaram: a Argentina não tinha as acreditações, então a plataforma era uma operação doméstica com custos de escala de exportação.
A BRF nunca construiu a cadeia integrada de fornecedores que faz seu modelo brasileiro de frango funcionar, e recusou a correção de US$ 50 milhões em 2014–15 em favor de cosmética de balanço.
Seu próprio fornecedor de genética tornou-se lobista do regulador, bloqueando a única correção de suprimento que poderia ter tornado a unidade competitiva.
A lição
Uma plataforma de exportação sem acreditação de exportação é apenas uma fábrica: comprar capacidade em um mercado cujas licenças e cadeias de insumos você não controla compra prejuízos, não escala.
O pacote de desinvestimento de junho de 2018 — Argentina, Tailândia e Europa, com meta de R$ 5 bilhões até o fim do ano para reduzir dívida após o escândalo da Carne Fraca e seus embargos — colocou as operações argentinas à venda via Bradesco BBI e Itaú BBA. Pessoas de dentro esperavam que as partes fossem vendidas separadamente, com a Avex indo barato para sua rival local dominante.
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As fontes
- BRF terá de segregar ativos na Argentina Valor Econômico · valor.globo.com ·