Toda agência criativa que se sustenta em algumas grandes contas enfrenta a questão Fischer: o que acontece quando os clientes vão embora? A história da agência de publicidade mais premiada do Brasil se tornando incapaz de pagar o próprio pessoal é o alerta que todo fundador de agência deveria ler.
Eduardo Fischer e Roberto Justus fundaram a Fischer & Justus em São Paulo em 1981. Eram os meninos de ouro da publicidade brasileira — jovens, criativos e bem conectados. Em quatro anos, venderam a agência para a Young & Rubicam e se tornaram Fischer, Justus, Young & Rubicam. Em 1989, a dupla deixou a Y&R e criou o Grupo Total, uma rede de agências regionais pelo Brasil. O nome Fischer se tornou um dos mais reconhecíveis da publicidade latino-americana.
O momento decisivo da agência veio em 1991, quando conquistou a conta da cerveja Brahma. A Fischer América criou a icônica campanha "Brahma, a número 1" para a Copa do Mundo de 1994, que transformou uma cerveja regional em marca nacional. A agência passou a atender Schincariol (Nova Schin, com Zeca Pagodinho como garoto-propaganda), Kaiser, Vivo, Ponto Frio, AllStar e LG. Conquistou dezenas de prêmios de criação e foi eleita Agência de Publicidade do Ano várias vezes. Em 2009, foi nomeada uma das principais agências independentes do mundo pela thenetworkone e pela Campaign Magazine.
Roberto Justus deixou a sociedade em 1998. A agência então se tornou Fischer América, sob o comando apenas de Eduardo Fischer. Ao longo da década seguinte, a agência perdeu grandes contas uma a uma. A Brahma transferiu seus negócios após a consolidação global da InBev. Outros clientes seguiram o mesmo caminho à medida que as redes globais consolidavam seus quadros de agências. A agência não conseguiu repor a receita perdida nem se adaptar à transformação digital que remodelava a publicidade. Em 2018, a agência não tinha mais escritório físico e suas redes sociais haviam silenciado.
No fim de 2018, um grupo de 120 ex-funcionários tornou o caso público. Eles haviam deixado de receber salários e benefícios. A Fischer América havia se mudado para um endereço desconhecido sem avisar seu pessoal. A agência foi reduzida a três pequenos clientes governamentais — Sabesp, CSN e Embracon — atendidos por um punhado de funcionários trabalhando de casa. Eduardo Fischer não respondeu. A agência fechou em 2019. Até 2026, mais de 42 ex-funcionários ainda buscavam na Justiça o pagamento de salários atrasados, com mandados expedidos contra bens pessoais de Fischer.
Manteve a marca viva com três pequenos clientes governamentais enquanto 120 funcionários ficaram sem receber, deixando 42 ações judiciais e mandados contra bens pessoais de Fischer.
A Fischer América dependia de algumas grandes contas — Brahma, Schincariol, Vivo — e as perdeu à medida que a consolidação global da publicidade transferia os negócios para redes internacionais.
Roberto Justus era o cérebro dos negócios. Quando saiu, em 1998, a agência perdeu o estrategista que impulsionava seu crescimento. Eduardo Fischer era uma estrela da criação, não um gestor.
A agência não se adaptou à publicidade digital. Construída sobre a criatividade para TV e impresso, ficou para trás enquanto agências mais jovens assumiam os orçamentos digitais.
Eduardo Fischer administrava a agência como um feudo pessoal. Em vez de reestruturar ou encerrar com dignidade, manteve a marca viva até que os funcionários ficassem sem receber.
A lição
Uma agência criativa que se sustenta em algumas grandes contas pode entrar em colapso quando essas contas vão embora. A Fischer América foi lendária nos anos 1990 e invisível em 2019.
A marca Fischer América foi destruída por seu fracasso em pagar os funcionários. Eduardo Fischer continuou sendo uma figura pública na publicidade brasileira e foi contratado em maio de 2026 como marqueteiro de campanha da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Em 2020, o ex-sócio Roberto Justus refletiu publicamente sobre o legado da agência e seu fim inglório. A história é contada nos círculos publicitários brasileiros como o conto de advertência de uma potência criativa que não percebeu a mudança do setor até que fosse tarde demais.
CONFIRA AS EVIDÊNCIAS
As fontes
- Fischer, à espera de um milagre — Janela Publicitária (Feb 2019) janela.com.br
- Fischer América — Wikipedia (PT) pt.wikipedia.org
- Fischer, Justus (1985–1998) — Latinspots profile latinspots.com