Em julho de 2021, a Ammo Varejo — braço varejista de cama, mesa e banho do grupo têxtil mineiro Coteminas, operador das marcas MMartan, Santista e Artex — protocolou pedido de IPO na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), com a XP na liderança. O prospecto era confiante: 1,4 milhão de clientes ativos, alta de 37,5% em relação ao ano anterior, 233 lojas físicas, capital de expansão para logística e lojas próprias. A oferta nunca se concretizou. A Ammo permaneceu uma companhia aberta registrada e não negociada (companhia incentivada) — status que carrega o calendário completo de divulgação periódica de um emissor listado.
As entregas apodreceram. Registros da CVM mostram que o primeiro relatório trimestral de 2023 chegou quatro meses atrasado; o segundo e o terceiro trimestrais foram entregues em 18 de setembro de 2024 — treze meses após o prazo. As demonstrações financeiras auditadas de 2023, devidas até 31 de março de 2024, chegaram em 25 de janeiro de 2025, cerca de dez meses atrasadas. Os três trimestrais de 2024 nunca foram entregues.
Em maio de 2024 veio a cascata. Em 6 de maio, o CEO, o diretor financeiro/de RI e um terceiro executivo saíram, e Josué Christiano Gomes da Silva — chefe do grupo controlador Coteminas e presidente da entidade patronal Fiesp — assumiu pessoalmente como CEO e diretor de RI. Dois dias depois, a Coteminas protocolou pedido de proteção judicial com dívidas inicialmente estimadas em R$ 2 bilhões. Em 17 de maio de 2024, a CVM suspendeu o registro de companhia aberta da Ammo por mais de doze meses de obrigações descumpridas; em 2025, a própria Ammo entrou em recuperação judicial, e em 23 de maio de 2025 o registro foi cancelado.
O veredito veio em 14 de julho de 2026. O Colegiado da CVM, seguindo o voto da comissária Marina Copola, multou o ex-diretor de RI Luiz Sundfeld em R$ 40 mil pelas demonstrações financeiras de 2023 entregues com atraso, e emitiu advertências formais ao presidente do conselho, Josué Gomes, e ao conselheiro João de Paula por não convocarem a assembleia geral ordinária do exercício de 2023 — uma tarefa societária que a companhia simplesmente ignorou. As demais acusações contra os ex-executivos e os atuais diretores foram rejeitadas. As penalidades ainda podem ser objeto de recurso ao conselho de recursos do sistema financeiro, com efeito suspensivo.
Multa de R$ 40 mil para o diretor de RI, advertências para o presidente do conselho; registro suspenso em 2024, cancelado em 2025; companhia em recuperação judicial
O IPO morreu, mas o registro sobreviveu, e com ele o calendário completo de divulgação; a administração tratou as obrigações de um emissor registrado como opcionais uma vez que não havia oferta a preparar.
A função de RI estava oca: os relatórios trimestrais atrasaram quatro meses, depois treze, e então pararam por completo, enquanto as demonstrações anuais auditadas chegaram dez meses após o prazo legal.
O grupo controlador respondeu instalando seu próprio chefe como CEO e diretor de RI em maio de 2024 — o que não reiniciou a conformidade; herdou uma função colapsada em meio à recuperação judicial do grupo.
O conselho ignorou seu dever estatutário mais básico: nenhuma assembleia geral ordinária foi convocada para o exercício de 2023, o mecanismo pelo qual as contas são aprovadas e os administradores são responsabilizados.
A lição
O registro de companhia aberta é uma obrigação permanente, não um troféu. Quando a janela de IPO se fecha, o calendário de divulgação não se fecha, e um acionista controlador assumindo a cadeira de CEO não isenta ninguém.
O registro de companhia aberta da Ammo, suspenso em maio de 2024, foi cancelado em definitivo em maio de 2025, e a companhia seguiu sua controladora na recuperação judicial — credores ainda negociavam o plano da Coteminas, avaliado em R$ 1,48 bilhão após cortes em relação aos R$ 2 bilhões, até meados de 2025, com mais de dez mil credores na lista. As condenações da CVM de julho de 2026 permanecem passíveis de recurso com efeito suspensivo. O caso é um marco para a fila brasileira de registros da era do IPO que nunca listaram: o dever regulatório persiste em plena força, quer a oferta venha ou não.
CONFIRA AS EVIDÊNCIAS
As fontes
- CVM multa em R$ 40 mil diretor da Ammo Varejo S.A. CVM (Comissão de Valores Mobiliários) · gov.br ·
- Parecer Técnico Nº 97/2025-CVM/SEP/GEA-4 — PAS CVM 19957.001044/2025-42 (Ammo Varejo) CVM (Comissão de Valores Mobiliários) · gov.br
- Dona da marca MMartan e controlada pela Coteminas, AMMO Varejo pede registro de IPO na CVM Bloomberg Línea Brasil · bloomberglinea.com.br ·
- O drama na Ammo Varejo às vésperas de decisão sobre RJ e o que diz Josué Gomes da Silva NeoFeed · neofeed.com.br ·