Quando a premissa macroeconômica muda, o estoque construído sobre ela se transforma em dívida. O excesso de estoque da Mesbla era racional em 1993 e fatal em 1995; nomeie a premissa da qual cada aposta depende e fique atento ao seu fim.
A Mesbla começou em 1912 na Rua da Assembleia 83, no Rio, como filial de uma firma parisiense, a Mestre & Blatgé. Em 1939 adotou um novo nome — as primeiras sílabas do antigo, escolhidas em concurso interno pela secretária Isaura, porque a postura da França em tempo de guerra tornava o nome francês um fardo. A sede art déco do Passeio fez dela a loja de departamentos do Rio; nos anos 1980, operava 180 pontos de venda e empregava 28 mil pessoas. Seu pessoal se orgulhava de que a Mesbla vendia tudo, menos caixões: desde botões até automóveis, lanchas e aviões.
A aposta que a matou foi um hedge contra a inflação: quando a hiperinflação voltou a se intensificar, a direção estocou mercadorias em excesso, antecipando altas de preços; o Plano Real acabou com a inflação e mostrou as fragilidades da Mesbla. Com quarenta diretores, as decisões eram lentas. Em 2 de agosto de 1995, o grupo pediu concordata devendo R$ 330 milhões, abrangendo 45 lojas e 17 concessionárias de automóveis, e culpou os juros altos e a queda do consumo. Em 1997, o controle passou para Ricardo Mansur, que comprou 51% por R$ 600 milhões, sobre dívidas acima de um bilhão de reais.
A falência foi decretada em 29 de julho de 1999. Seguiram-se ordens de despejo em 3 de agosto, fechando as lojas de shopping; a sede do Passeio fechou em 13 de agosto; a última loja, em Niterói, em 24 de agosto. Cerca de 750 funcionários restavam no fim. O prédio art déco ainda está garboso em frente ao Passeio Público, e o pavimento de 6 mil metros quadrados abaixo dele é uma Lojas Americanas.
O que sobreviveu foi o relógio. O farol-relógio de 9,45 metros que a Mesbla deu à ilha de Paquetá em 1966 — réplica do que fica na Rua do Passeio — foi protegido pelo Decreto 17.555/1999, justamente o ano em que a empresa morreu; o original ainda enfeita a rua. Hoje restou o relógio, suspirou um leitor. E o nome continua voltando como pura memória: uma licença de e-commerce de 2009 voltada ao público feminino e um relançamento de marketplace em 2022, tentando explorar o valor nostálgico de seu nome.
A Mesbla estocou mercadorias como hedge contra a inflação, mas a estabilidade tornou esse estoque invendável; a falência veio em 1999, e só o seu relógio sobreviveu, protegido por decreto.
O hedge contra a inflação virou a ferida: o excesso de estoque, racional sob hiperinflação, era estoque morto sob o Plano Real.
A governança não conseguiu acompanhar a macroeconomia: quarenta diretores, decisões lentas, uma concordata de R$ 330 milhões e, depois, um comprador de resgate que herdou mais de um bilhão de reais em dívidas.
A marca sobreviveu ao negócio como pura nostalgia: um relógio protegido e os relançamentos de 2009 e 2022 vendendo a memória, não a mercadoria.
A lição
Uma estratégia construída para uma economia é um passivo na seguinte. A Mesbla estocou para a hiperinflação e foi pega pela estabilidade; a empresa morreu e seu relógio foi protegido por decreto no mesmo ano.
CONFIRA AS EVIDÊNCIAS
As fontes
- Wikipédia (pt) — Mesbla (1912: filial da firma Mestre & Blatgé, com sede em Paris, na rua da Assembleia 83; 1939 new name from the first syllables, suggested by the secretary Isaura in an internal contest, wartime motive; 1980s: 180 pontos de venda, cerca de 28 mil funcionários; 'só não vendia caixões funerários'; overstocking for hyperinflation, Plano Real showed the fragilities; forty directors; 1997: Mansur buys 51% for R$ 600 million, debts over a billion; bankruptcy decreed July 1999; evictions 3 August; HQ closed 13 August; last store Niterói 24 August; 750 employees; 60,000 trucks to China for US$ 900 million) pt.wikipedia.org
- Folha de S.Paulo — Mesbla pede concordata (3 August 1995: 'A dívida total do grupo Mesbla é de R$ 330 milhões'; 'O grupo tem 45 lojas e 17 concessionários de automóveis'; motives: high interest and consumption slump) www1.folha.uol.com.br
- Folha de S.Paulo (25 February 2000: pins the bankruptcy decree — 'a falência, decretada em 29 de julho de 99') www1.folha.uol.com.br
- Diário do Rio — História da Mesbla (2020: 'Tudo começou na Rua da Assembleia, número 83... uma filial da firma Mestre & Blatgé'; 'só não vendia caixões funerários... desde botões até automóveis, lanchas e aviões'; HQ today 'propriedade da São Carlos Empreendimentos... uma gigantesca filial das Lojas Americanas'; the clock; reader comment 'Hoje restou o relógio'; 180 stores, 28,000 employees in the 1980s) diariodorio.com
- Monumentos Rio — Relógio de Paquetá (inaugurated 28 August 1966; 9.45 m; 'réplica do relógio da Mesbla na Rua do Passeio'; 'Presente da então loja de departamentos Mesbla (1912–1999), atual e-commerce (2022–)'; protected by Decreto 17.555/1999) monumentos.rio.br
- O Globo — Mesbla terá loja virtual só para público feminino (19 October 2009: 'Uma das redes varejistas mais conhecidas do país, que faliu no fim dos anos 90, entrou para o mundo virtual'; brand licensed from the Mansur family; women-only e-commerce, launch planned April 2010) oglobo.globo.com
- Correio Braziliense — Do auge à falência: a trajetória da Mesbla (June 2026: 'O fechamento das lojas marcou o fim de uma era no varejo brasileiro e deixou um vazio simbólico'; 'Comprar na Mesbla era uma experiência não só comercial, mas social e de lazer'; 'Em 2022, a Mesbla foi relançada como uma plataforma digital de marketplace, sem lojas físicas, tentando explorar o valor nostálgico de seu nome') correiobraziliense.com.br